fast fashion

— O VERDADEIRO CUSTO DA MODA —

Esses dias entrei na Forever 21 aqui em Brasília. Coloquei mil roupas numa sacola, experimentei. Pensei: “R$19 nessa blusinha? Muito barato! E essa calça de cintura alta só R$49? MARAVILHA!”. Felizmente, as roupas não vestiram tão bem e acabei deixando-as de volta no cabide. Fiquei arrependida de não comprar um cropped top e voltei 1 semana depois, para ver que a loja estava INTEIRAMENTE diferente. Depois de procurar na loja inteira, questionei uma vendedora sobre ele, que disse “a rotatividade aqui é muito alta, todo dia chega coisa nova”. Bom. Pro consumidor. Mas qual é o verdadeiro custo dessa manutenção?

Ter um guarda-roupas variado é uma das grandes ambições de muitas pessoas. Expressar-se por meio de vestimentas é algo que as pessoas vêm fazendo há milhares de anos, mas nunca na história cada um de nós pôde ser tão individual baseado no armário que tem em casa. Nas últimas décadas, vestir-se de forma única – e bastante variada – tornou-se cada vez mais fácil pelo acesso facilitado a roupas diferentes, divertidas, variadas, elegantes e despojadas a um custo relativamente baixo.

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Muitos de nós têm o poder aquisitivo para entrar em algumas lojas de departamento no shopping  e comprar 3, 5, 10 peças de roupas de uma vez. Frequentemente lemos nas estiquetas: IMPORTADO. Verificando melhor, encontramos nomes de diversos países asiáticos sobre os quais pouco sabemos – Camboja, Vietnã, Indonésia, Bangladesh… E por que as roupas são produzidas nesses países? Acontece que custa muito pouco produzi-las por lá.

— PRODUÇÃO —

Mas como custa tão pouco, Luísa, se é preciso produzir pagar o designer, o plantio e colheita do algodão, a coloração, a estampagem do tecido, o corte e a costura e ainda, literalmente, viajar meio mundo para vender? A resposta é curta e fácil: a mão de obra é extremamente barata e não há leis trabalhistas claras que protejam pessoas que trabalham nessas fábricas.

No Brasil, a abertura ao comércio com esses países tem aumentado cada vez mais. Os Estados Unidos terceirizaram 97% da sua produção de roupas, o que significa que há um espaço gigante para a exploração. Quantas pessoas você conhece que gostam de comprar roupas nos EUA? As lojas grandes no Brasil, como Riachuelo e C&A já terceirizam 35% da sua produção. A indústria de fast fashion é a maior causadora desses impactos.

Quando uma marca  como H&M, Forever 21, ASOS e outras (estou citando essas porque apareceram no documentário sobre o qual vou falar abaixo), leva negócios a esses países, demandam – não pedem – que uma fábrica produza, digamos, 50 mil camisetas ao preço de R$5. É ordenado que se produza rápido e barato. Se não aceitarem o acordo, a loja vai até outra fábrica, que deve aceitar esse abuso para não fechar as portas.

quem paga

Quem paga o preço?

O documentário THE TRUE COST – disponível no Netflix Brasil – pretende explicitar como grandes marcas do mundo ocidental exploram fábricas no Oriente para oferecer preços cada vez mais baixos ao consumidor, ainda que os custos de fabricação se mantenham altos. Um time de profissionais preocupados com a construção de um futuro melhor se uniu para desmascarar o que é que a indústria da moda tem que pode não ser tão lindo quanto parece.

Você sabe quanto REALMENTE custa a sua roupa? O custo verdadeiro pode embutir muito mais do que você imagina. O diretor, Andrew Morgan, abre o documentário com uma frase que já mexeu muito comigo: “precisamos saber a verdade sobre as mãos e os corações por trás de nossas roupas” – seguindo em uma jornada bastante trágica e problemática sobre condições de trabalho em fábricas inseguras e insalubres.

fábrica desmoronável

Em 2013, uma fábrica em Bangladesh desmoronou depois de passar meses com as rachaduras sendo reportadas, matando mais de 1100 trabalhadores e ferindo outros milhares. Foi criada então uma ONG chamada Fashion Revolution. Conheça aqui a página do Facebook da Fashion Revolution Brasil

Eu já tinha alguuma ideia… sobre por que poderia, assimm talvez, quem sabe, ser um “pouco prejudicial” comprar roupas sem pensar de onde elas vêm. O documentário mostrou toda a cadeia de produção – desde o plantio e colheita do algodão – até as condições desumanas de trabalho a que as pessoas são submetidas. Com o objetivo de informar e educar, nos faz questionar a origem e o custo verdadeiro do que nos veste.

O que acontece depois da compra também é abordado pelo documentário. O custo baixíssimo das roupas nos dá uma sensação de que são descartáveis. Muitas vezes, os são mesmo – com 4 lavagens a roupa se despedaça. Quem nunca passou por isso? Além disso, por ser barato, se não gostei, posso jogar fora, ou mesmo doar depois de usar apenas 1 ou 2 vezes.  Geramos uma quantidade de lixo gigantesca ao tornarmos produtos duráveis em descartáveis.

Li recentemente que consumimos nesses 8 meses de 2015 a quantidade de produtos renováveis que a Terra consegue fornecer em 1 ano. A partir de 14 de agosto, passamos a sobrecarregar a terra. O último 1/3 do ano vai literalmente operar acima do limite. Veja reportagens sobre o fato aqui e aqui.

 Continuando o papo sobre moda e responsabilidade social, vejam abaixo um experimento social: uma máquina foi colocada num local público em Berlim, para vender camisetas a 2 euros. As pessoas eram atraídas pelo custo baixo e convidadas a assistir um vídeo antes de receber a camiseta. Vejam qual foi o resultado:

— O VERDADEIRO CUSTO… DE TUDO —

Nosso estilo de vida ocidental, baseado fortemente no consumismo, tem alto custo e grande impacto no planeta. Conheci uma página anos atrás chamada Slavery Footprint (em inglês), que denuncia como nossas vidas são sustentadas por escravos e disponibiliza um teste para você descobrir quantos escravos tem. E sim, se você tem computador, smartphone, roupas, móveis, joias… É provável que você seja sustentado por alguns escravos.

40 escravos

O que podemos fazer?

O consumo sustentável tem crescido cada vez mais no mundo. Como ponta da cadeia, nós consumidores temos o poder de gastar o dinheiro com o que acreditamos, direcionando o fluxo monetário de forma que possa redimensionar como as grandes marcas aplicam seu dinheiro.

Claro que um preço mais alto não significa necessariamente que a qualidade é melhor, nem que a procedência da roupa é decente. Valorize o comércio local da sua cidade, e do Brasil, sempre que possível!

Curta a página Fashion Revolution Brasil e fique por dentro de eventos e novas marcas que se preocupam com o impacto social e ambiental. Foi por lá que conheci o documentário The True Cost (não deixem de assistir!). Pesquise sempre antes de fazer compras e saiba para onde seu dinheiro está indo. Isso é uma forma de valorizar o dinheiro que você mereceu com seu trabalho! Fique por dentro do compromisso que suas marcas prediletas fazem. Ah, e conheça também o aplicativo Moda Livre, que denuncia marcas que utilizam trabalho escravo. 

Você também pode investir em projetos DIY para customizar roupas que não usa mais, doar para instituições ou pessoas que precisam quando enjoar e, principalmente: refletir antes de efetuar uma compra. Preciso realmente disso? Vale a pena investir em modelos mais clássicos e de qualidade para durar mais tempo e não cansar a sua vista ou sair de moda e ir pro fundo do armário.

Sei que foi muuuita informação nesse post; a minha intenção foi reunir aspectos importantes sobre uma indústria pela qual todos nós somos afetados. Somente nos educando e responsabilizando é que poderemos fazer do mundo um lugar melhor para aqueles que são exatamente como nós, ainda que silenciados, torturados, “invisibilizados” e explorados.

Fazendo isso, podemos melhorar o mundo e deixarmos um lugar decente para que as gerações futuras de qualquer região do planeta possam, mais que existir e serem exploradas, viver bem em todos os aspectos: psicológico, social e ambiental.